
- Vida longa e próspera. Não como ele sonhava, mas…
Em uma manhã de 1986, estava eu diante da TV assistindo a um GP da Grã-Bretanha em Brands Hatch. Seria uma corrida especial para Jacques Laffite, que tendo participado de 175 corridas na Fórmula 1, alcançaria naquele dia a marca histórica de Graham Hill (que perdurava havia 11 anos). Na primeira volta, o azarado francês sofreu um acidente que lhe quebrou as duas pernas.Como a largada foi cancelada (oficialmente não aconteceu), ele não alcançou aquele número mágico. Brands Hatch nunca mais abrigou a F1, e Laffite encerrou ali sua carreira em monopostos.

- Jordan 1993
Quase um quarto de século depois, sabemos que o recorde de Hill (dependendo da fonte, de Laffite também) já foi superada por diversos pilotos. Mas foi um brasileiro que ousou romper a barreira dos 300 Grandes Prêmios – e contando, pois ele já tem praticamente renovado seu contrato com a Williams por pelo menos mais uma temporada. Nem precisa mencionar que seu feito dificilmente será igualado por qualquer outro.
Muitos são os motivos que levam um piloto à aposentadoria. Falta de patrocínio, de vaga para correr, cansaço (seja em relação às constantes viagens e compromissos ou ao ambiente predatório dos paddocks), ou mesmo o fim do prazo de validade do piloto – quando a velocidade claramente diminui e o medo, aumenta. Ao contrário disso tudo, Rubens Barrichello foi mais longe do que todos os demais, e não dá mostras de que para tão cedo.
O Barrichello de hoje não é mais aquele Rubinho, moleque rápido e sonhador, deslumbrado por ter alcançado seu maior objetivo, recém promovido àquele seleto grupo pelas mãos de Eddie Jordan. Também não é o atormentado piloto que buscava um caminho após receber a pesada carga de substituir a ninguém menos que Ayrton Senna, seu tutor e amigo, nos corações dos (muito) pouco informados porém (extremamente) exigentes torcedores brasileiros. Tampouco ele é hoje o Rubens, rapaz novamente deslumbrado ao ter o privilégio de guiar por uma das equipes mais tradicionais da categoria, que sofreu a duras penas para entender que ele não era o número 1 na pista – muito menos o seria dentro do time. No meio dos leões, não se portou como gladiador, e sim como cordeiro. Mas aprendeu. O Barrichello de hoje coleciona lições adquiridas com gosto ou a contragosto, desde seu acidente no fatídico GP de San Marino de 1994 até a sua quase aposentadoria quando a Honda deu o seu sayonara. Ele pondera as palavras, trabalha quietinho, segue fazendo aquilo que gosta e ainda ganha uma boa grana para tal.
É muito fácil para a sua legião de críticos descerem a lenha no piloto, afinal de contas, ele os municia com bastante frequência. Difícil para eles é admitir as qualidades inegáveis que o levaram a atingir essa marca. Mesmo que seja pela insistência, Barrichello consegue assim escrever seu nome na história da F1, e muita gente vai ter que engolir.
Em Spa-Francorchamps, a corrida do Highlander acabou na primeira volta. Justo ele foi vítima dos caprichos meteorológicos da pista belga. Pode-se dizer que foi o fim de semana que separou os homens dos meninos. Mark Webber refugou na largada caindo para sétimo, porém manteve o sangue frio que o levou ao pódio. Lewis Hamilton foi sempre favorito e confirmou a sua condição de postulante ao título. Com a vitória, veio e a liderança do campeonato e o alívio. Depois de uma escapada nas voltas finais, quando a chuva deu às caras novamente, certamente o britânico cruzou a bandeirada prendendo a respiração.

- Gongo no Tião
Pelo jeito que as coisas andam, provavelmente a disputa pelo título fica entre Hamilton e Webber. Porque Sebastian Vettel está alternando momentos, alguns mais Gilles Villeneuve e outros mais Nigel Mansell, ou seja: muito talento e pouco cérebro. Após uma atuação desastrada – e desastrosa -, o alemão está em um limbo muito perigoso. Ele é jovem e ainda tem muito a amadurecer, mas por outro lado, ele já deveria demonstrar alguma experiência e não cometer erros como a bizarrice em que ele arruinou não apenas sua própria corrida, mas também a do campeão Jenson Button. Com o mau resultado dos dois, seus parceiros ganharam uma vantagem importante na reta final da temporada. Errando assim, não dá para ser campeão. Nem merece.
Como de hábito, façamos reverência ao melhor piloto do ano: Robert Kubica. O feinho anda muito mais do que o seu carro e se intromete sem a menor cerimônia entre os caras que disputam o campeonato. Andou em segundo e ficou em terceiro. Pior para o seu companheiro Vitaly Petrov, novato, mas que mesmo assim, está sob constante pressão dentro da equipe. E considere que o russo saiu das profundezas da 23ª posição para chegar em nono.
Michael Schumacher também veio do fundão (em função da punição da Hungria) e pontuou. Para não abandonar a rotina, foi ultrapassado já no fim por Nico Rosberg, que tomou a sexta posição de um heptacampeão resignado. Até porque quando ele se defende, dá zebra.
Sobre aquela equipe, continuamos sem comentários até que saia alguma conclusão do julgamento. Só para lembrar que o Conselho Mundial da FIA se reunirá no dia 8, nas vésperas do GP da Itália (próximo dia 12). Será que o Conselho vai colocar jiló nessa pizza? Acho que eles vão todos de mozzarella mesmo…
