Não. Não é o pão-de-queijo. Esse aí tá mais pra solução. Também não é a notória desconfiança de quem nasce entre as montanhas serras, nem a beleza das mulheres que levam jogadores à loucura. Pode até ser a cachaça. Mas o Império do Colesterol Amor ainda não estacionou por essas bandas.
O problema do futebol mineiro, ou pelo menos dos dois maiores clubes (Cruzeiro e América, digo, Atlético-MG), está na fanfarronice dos presidentes desses dois clubes. Fanfarronice essa que é diferente dos dirigentes cariocas, por exemplo. Mas é tão ou mais prejudicial do que o ocorrido em outros clubes do país.
Se em várias equipes o problema gerencial passa pelo amadorismo e a politicagem reinante no comando dos mesmos, ou na falta de transparência no relacionamento entre o parceiro e o clube. Em Minas, Cruzeiro e Galo tem problemas distintos em relação aos outros dirigentes e entre si mesmos.
O problema Azul parece claro. A dinastia Perrella se prolonga no poder e muitos desconfiam que abusa da boa vontade dos cofres azuis para aumentar seu patrimônio. Mas essa é apenas uma das razões do alegado “empobrecimento” do clube. Outro ponto interessante e pouco lembrado é o fato de muitos funcionários lotados em cargos de confiança serem “apadrinhados” dos altos dirigentes. E a inebriação dos sócios votantes com a fase de títulos que durou até 2003 impede que haja uma oposição forte no clube. Muitos apostam que Gustavo Perrella, vice-presidente de futebol cruzeirense, seja o próximo na lista da família de presidentes.

Perrella, o Ditador.
Não bastasse isso, falta transparência também na prestação de contas. O sentimento geral da torcida é de que as rendas anuais do Cruzeiro, que nas palavras de Eduardo Maluf, diretor de futebol, são na ordem de “R$ 70 milhões, sem contar o saldo de transferências. R$ 40 milhões abaixo do São Paulo, por exemplo” não são totalmente usadas em benefício do clube, mas em favor de quem o controla. Tudo isso, sem falar nas falsas promessas que todo cruzeirense cansou de ouvir. O Cruzeiro, se antes formava bons times de forma inteligente, hoje conta com Roger Chinelinho e com o possível reforço de Robert, o Cachaça. Isso sem falar no elenco inchado.
No Galo, o problema é outro e, apesar de não aparentar ser tão sério, pode acabar com consequências catastróficas. Alexandre Kalil, filho do responsável pela década mais vitoriosa do Alvinegro, o falecido presidente Elias Kalil, é considerado um santo para os torcedores do Atlético-MG. Ao vestir o manto de torcedor apaixonado, que fala tudo que o atleticano gosta de ouvir, ele joga pra uma torcida que preza essa paixão mais do que qualquer outra conquista, e se põe como o mais pronto para dirigir um time com uma legião de fiéis. O problema é que faz uso da ilusão ao afirmar que suas contratações são sempre os maiores achados do mercado. Além de suas ligações com o odiado Ricardo Guimarães, que é um dos financiadores do futebol do clube, o atual presidente fazia parte das administrações de Paulo Cury e Nélio Brant, que teve uma das mais “nebulosas” direções da história, segundo o conselheiro Manfredo Palhares. Os três “amigos” acima referidos foram responsáveis por grande parte da dívida atual que assombra os corações atleticanos.
Se Tardelli foi uma grata surpresa (vinha de temporadas irregulares em todos clubes em que atuou), outros jogadores só fizeram água. Aranha e Carini chegaram para solução no gol, mas em meio a pressão da torcida e de falhas em jogos decisivos, perderam o status. Ricardinho chegou para ser o organizador do time, mas chegou a comer banco de Renan Oliveira, outra eterna promessa, e muitos alvinegros pediram sua saída. Rentería e Alessandro (quem?) foram contratados para fazer raiva na torcida do Cruzeiro, mas o tiro acabou saindo pela culatra. Fabiano atuou bem nas finais do Mineiro e não fez mais nada. Cáceres e Benítez não fizeram o trabalho que deles se esperava. E Luxemburgo já mostrou suas asas ao barrar a renovação de contrato de Marques, ídolo da Massa e que esperava encerrar a carreira no fim de uma temporada “que tem tudo para ser vitoriosa”. A contratação de Daniel Carvalho, visivelmente fora do peso, é outra incógnita. O jogador só se deu bem no começo da carreira, no Internacional. Depois desapareceu.

Kalil, o Ilusionista.
Aqui, abre-se um parênteses: Luxa é um ótimo técnico, quanto a isso não há dúvidas. E, para melhorar a situação do sucessor de “Sexy” Roth, ele parece estar muito motivado em trabalhar no Galo. Mas a decisão de renovação ou não de contrato de um jogador que é um dos maiores ídolos da história do clube cabe aos dirigentes que conhecem a fundo essa história. Dar seus pitacos sobre isso, indica um poder que cabe a um gerente (manager é o caralho). E quando Luxa foi Manager (Real Madrid, Palmeiras e Santos) o saldo final não foi positivo. No Santos, por exemplo, pode-se afirmar que foi catastrófico.
Além dos problemas efetivamente administrativos, Perrella e Kalil, apesar de amigos, não se entendem, ou fingem não se entender, quando o assunto é aumento de rentabilidade dos dois times. Ao invés de buscarem uma atuação conjunta no C-13 e na CBF para arrecadarem mais dinheiro com cotas de TV e patrocínios, as discussões “para inglês ver” e a falta de acordos entre os dois dirigentes acabam prejudicando ambos. Com jogo duro do presidente alvinegro na final do Mineiro de 2009, ao não aceitar estampar a marca BMG na camisa para os dois últimos jogos, o Galo deixou de receber R$ 500 mil reais que, se não ajudam (o que eu duvido), pelo menos não iriam atrapalhar. Mas entende-se, afinal não são muitos que acreditam hoje numa relação financeira séria com a família Perrella.
Em Belo Horizonte, raras são as vezes em que a torcida invade o campo de treino de um time ou os muros aparecem pichados por ”facções” organizadas com ameaças de morte, apesar do ex-presidente Ziza Valadares ter sofrido com esse tipo de bandidagem. Por outro lado, quem faz o trabalho sujo são os homens que deveriam se responsabilizar pelo crescimento dos clubes. Com amigos assim, quem precisa de Torcida Organizada?